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Piloto que passou 36 dias em mata conta como sobreviveu: ‘A floresta não está lá para te matar’

Antônio Sena foi resgatado com 26 quilos a menos, mas com uma bagagem de superação.

O piloto paraense Antônio Sena, de 36 anos, passou 36 dias desaparecido após um acidente de avião até ser resgatado no último sábado (6). As equipes de resgate já tinham desistido de encontrá-lo, quando ele foi ajudado por coletores de castanha no meio da mata. Ele estava com 26 quilos a menos, mas com uma bagagem de superação.

Antônio desapareceu no dia 28 de janeiro, quando seu avião caiu em uma área de floresta perto do rio Paru, próximo à divisa do Pará com o Amapá. Ele caminhou por 32 dias até encontrar o acampamento de um grupo de coletores de castanha, que o deram alimento e pediram socorro por meio de um rádio amador.

O resgate envolveu equipes da Força Aérea Brasileira, Corpo de Bombeiros e voluntários dos dois estados.

Sobrevivência

O piloto conta que, após o acidente, ficou preocupado em se manter ativo, achar água, comida e fazer abrigo. “Fiz uma barraca com duas forquilhas de madeira, folhas de palmeira e usei sacos de sarrapilha para forrar, cobrir a barraca e aquecer meus pés à noite, quando a temperatura chegava a 16°C”, relembrou.

Antônio usou o ensinamento do curso de sobrevivência, onde aprendeu que se os recursos são escassos, a pessoa não pode beber água nas primeiras 24 horas e nem comer nas primeiras 48. Além de priorizar encontrar água, abrigo e fogo.

“Se eu tive medo? Várias vezes. À noite, mais, porque é um momento em que a floresta te envolve nos medos mais profundos”, relatou.

Ele conta que improvisou uma vara com uma faca amarrada, que dormia com ela próxima, caso algum animal aparecesse. Para evitar visitantes indesejados, ele não dormiu perto de igarapés, porque “a água atrai bichos”.

O piloto conta que chegou a ouvir as aeronaves de busca, mas elas passavam cada vez mais longe e com menos frequência conforme passavam os dias.

No oitavo dia, Antônio resolveu caminhar em busca de ajuda.

Ele conseguiu contar com o celular, que resistiu ao acidente, mas estava sem sinal e só tinha um registro do mapa. No primeiro dia de caminhada em direção às três pistas de pouso marcadas ou rumo ao rio Paru, Antônio teve uma crise de hipoglicemia e desmaiou. Ele acabou tomando a última lata de refrigerante.

“Água eu tinha bastante; já a oferta de frutas era pouca”, contou. “Eu me alimentei muito de uma frutinha chamada breu, que conhecia só como fonte de fogo. Onde via, pegava e guardava, mas não sabia que era comestível até acabar o pão e, eu, com fome, comecei a observar os macacos. Tudo o que eles comiam eu comia também”, completou o piloto, que se alimentou à base de frutas e ovos de aves.

Com a oferta escassa de alimento, ele explicou como perdeu 26 quilos: “Acontecia muito de eu passar três dias sem comer”.

Nasceu de novo

Por volta das 16h da sexta-feira (5), Antônio viu uma lona cheia de castanhas e relacionou ser uma área de castanheiros. A primeira pessoa que o encontrou perguntou como poderia ajudá-lo e lhe ofereceu castanhas.

“Eles me levaram para um barracão, onde conheci a dona Maria Jorge. Ela disse que ligaria para minha família com um rádio amador e me preparou leite quente com bolacha”, contou.

“Eu já estava muito fraco, com perda de visão e desmaios há três dias. Os exames que fiz depois apontaram um nível de desgaste muscular como se eu tivesse corrido uma maratona a cada dois dias”, acrescentou o piloto.

Os castanheiros entraram em contato o irmão de Antônio, em Santarém, e sua mãe, em Brasília. “Disseram para ela: ‘Seu filho mandou avisar que ele está vivo’”, relembrou. O resgate aconteceu no dia seguinte.

“Muita gente falou que eu venci a floresta, mas eu só passei por ela. E ela me sustentou, me deu água, alimento. A floresta não está lá para te matar. Ela é o sustento dos castanheiros que me salvaram”, defendeu.

Acidente

Antônio conta que sempre trabalhou com aviação comercial, mas após seu último trabalho, na África, decidiu ficar em Santarém. Ele aceitou um trabalho para voar para o garimpo clandestino. “Eram três dias de experiência e, no terceiro voo, aconteceu o acidente”, explicou.

O piloto relatou que, entre a pane e o impacto foram dois minutos: “Uma eternidade na aviação. Meu conhecimento da região amazônica e treinamentos me trouxeram muita calma”.

Ele conseguiu informar que estava caindo e que precisava fazer um pouso forçado. O avião caiu em um igarapé e ficou coberto de diesel.

“A primeira coisa que fiz foi pegar as três garrafas de água de 500 ml que estavam lá. Consegui pegar ainda quatro latas de refrigerante, um pacote de pão, sacos de sarrapilha [usados para ensacar o ouro no garimpo], uma corda e minha mochila, onde tinha canivete, faca de bolso, lanterna e isqueiro. Peguei tudo e me afastei da aeronave. Aos poucos, ouvi ela queimando”, relembrou como iniciou sua jornada pela sobrevivência.

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Redação Juruá Online

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