24 de maio de 2022   |   11:24  |  

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O resgate pela música: criado por promotor, projeto social do MP já acolheu mais de mil jovens em vulnerabilidade social no AC

Conservatório Musical do Juruá ensina arte a crianças e adolescentes. Ideia é fazer com que os jovens tenham contato com a arte, mas também encontrem acolhimento.

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Por G1 Acre

O escritor e poeta Ferreira Gullar já havia alertado: “A arte existe porque a vida não basta”, isso porque ela é um alento para nossas vivências, um refúgio. E é essa frase que estampa a fachada do Conservatório Musical do Juruá, em Cruzeiro do Sul – um projeto social que atende crianças e adolescentes em vulnerabilidade social, dando amparo, suporte e ensinando arte em um lugar que se transformou em uma espécie de santuário para esses jovens.

O projeto começou a nascer em 2015 por meio da inquietação do promotor de Justiça Iverson Bueno, que atua no Juruá há 12 anos. Ele conta que ao chegar na cidade percebeu que os jovens tinham poucas opções de cultura e teve a ideia, por iniciativa própria, de criar um projeto voltado para ajudar crianças e adolescentes em vulnerabilidade social.

Então, no ano seguinte, em 2016, nasceu o projeto “Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho”. Logo de início, Bueno chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para comprar os instrumentos e materiais necessários para a reforma do espaço que antes era do Educandário, mas que estava abandonado, e foi cedido ao projeto pelo Educandário por 20 anos.

O Educandário que é o grande parceiro do MP-AC neste projeto e também acolhe crianças, um trabalho coordenado por Rinauro Lima. Antes, acolhia filhos de pais com hanseníase e hoje acolhe crianças de pais que precisam trabalhar e deixam os filhos lá durante o dia.

Com o espaço que conseguiu indo em busca de ajuda, o promotor também contou com o apoio da banda do Exército, pelo Comando de Fronteira Juruá/ 61° Batalhão de Infantaria de Selva. A partir daí, foi muito trabalho e uma corrente de voluntários que se dedicava para que o projeto realmente criasse corpo. Não foi um trabalho fácil, mas, com a união de todos, aos poucos, foi avançando até conseguir mais recursos e chegar à estrutura atual.

“Na linha de frente, sempre fui eu como pessoa física. Depois que foi institucionalizado, o Ministério Público abraçou a causa, quando visitaram e conheceram nosso projeto”, conta o promotor ao revelar que, inclusive, o nome “Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho” faz alusão justamente às iniciais do MP-AC.

Atualmente, o programa conta com o apoio também do Judiciário, Fundação Elias Mansour (FEM) e prefeitura de Cruzeiro do Sul. Ao todo, desde sua criação, mais de mil crianças já passaram pelo local – descobrindo seus dons musicais, conhecendo suas aptidões, mas, acima de tudo, sendo acolhidos.

Promotor em 2016 durante lançamento do projeto em Cruzeiro do Sul — Foto: Divulgação/MP-AC/Arquivo

Promotor em 2016 durante lançamento do projeto em Cruzeiro do Sul — Foto: Divulgação/MP-AC/Arquivo

União de voluntários

Apaixonado por música, o promotor toca piano e também saxofone. Por tratar a arte como refúgio e por acompanhar de perto o avanço do crime sendo ainda mais comum entre os jovens, ele decidiu que esta era a forma de oferecer oportunidade.

“Como eu trabalhava com questões que envolviam o tráfico de drogas, homicídios, via muitos processos envolvendo adolescentes e crianças. Comecei a colocar o meu dinheiro pessoal, investi pesado no projeto para reformar e comprar instrumentos. Depois teve dinheiro da Justiça que ajuda projetos sociais na cidade, a gente foi conseguindo algumas doações porque as pessoas perceberam a seriedade do trabalho, do MP com o Exército e a coisa foi crescendo, crescendo, até que o MP institucionalizou e criou-se o Conservatório Musical do Vale do Juruá”, relembra.

Não foi um processo fácil, foi preciso dedicar tempo. Bueno, que é coordenador do programa até hoje, diz que precisou, muitas vezes, abdicar de momentos com a família para que tudo isso pudesse realmente sair do papel. Foi então que, além do corpo, o projeto foi criando alma.

Nesse período, os voluntários conseguiram ganhar um edital do Criança Esperança e, após três anos de tentativa, mais instrumentos foram comprados e também conseguiram recurso do movimento “Bem Maior”, do apresentador Luciano Huck.

“Foi muito esforço nesses últimos seis anos, muita dedicação, mas, principalmente, esse projeto só conseguiu ir pra frente por três fatores: força de vontade das pessoas, de botar a mão na massa literalmente, fazer a coisa acontecer; dinheiro, porque tive que colocar meu dinheiro e só depois de muito tempo que foi entrando algumas ajuda, porque tudo é gratuito no projeto, nós não cobramos nada; e o principal elemento que a gente fala é Deus, porque a presença de Deus lá dentro faz a diferença.”

O prédio foi reformado com materiais doados, com ajuda de todos os voluntários e também com a mão de obra dos presos do semiaberto.

Coral faz diversas apresentações no Juruá e também fora do estado — Foto: Arquivo/Conservatório

Coral faz diversas apresentações no Juruá e também fora do estado — Foto: Arquivo/Conservatório

‘Esse espaço é um refúgio’

A atmosfera do conservatório é de alento, suporte, acolhimento e, claro, arte. Porém, esse projeto não é apenas ensinar a arte da música, mas também da vida. Bueno diz que os jovens atendidos por eles vêm de uma realidade bastante dura, o que faz com que local seja um espaço de escuta.

“Música é 1% do que a gente faz aqui dentro, os outros 99% são filosofia de vida. Recebemos crianças, por exemplo, vítimas de violência doméstica. Então, a gente ajuda, conversa e entende esses problemas que eles passam e acabam usando esse espaço para se refugiar de problemas muito maiores que eles têm na vida”, destaca.

Devido à pandemia, hoje 300 jovens estão sendo atendidos pelo projeto em Cruzeiro do Sul, mas nos seis anos mais de mil já passaram pelo local. No conservatório, há aulas de diversos instrumentos, além de um coral e também outras artes. O desafio é sempre tentar fazer com que o jovem identifique seu dom e consiga desenvolvê-lo com a ajuda dos professores.

Hoje, os professores são remunerados, mas no início tudo era resultado de voluntariado. Inclusive, o lema do espaço é “O sentido da vida é ajudar o próximo”.

Por ter essa filosofia altruísta, foram definidas algumas regras para o ingresso dos jovens no projeto. É necessário ter de 10 a 17 anos e ter uma renda familiar total de até dois salários mínimos.

A ideia é fazer com que jovens consigam aprender algum instrumento musical e também serem acolhidos no espaço  — Foto: Paulo Roberto/g1

A ideia é fazer com que jovens consigam aprender algum instrumento musical e também serem acolhidos no espaço — Foto: Paulo Roberto

“Estabeleci essas regras junto com os professores justamente porque não quero fugir da finalidade do projeto, que é ser social. Mas, a cidade inteira quer entrar lá, principalmente, os que têm condições de pagar. Eles dizem que concordam, mas que acham injusto porque queriam estar com a gente, fazer parte do movimento e viver essa magia que sentimos ao participar dele”, conta.

A única exceção, caso sobrem vagas, é para o coral porque, segundo o promotor, quanto mais gente no coral, melhor, e também porque é muito rotativo. O convite a esses jovens é feito, principalmente, nas escolas públicas da cidade, que é onde se concentra o público-alvo.

Hoje pode-se dizer que o conservatório é uma iniciativa público-privada, que conta com o apoio de todas as entidades já citadas. É um dos programas mais importantes do Ministério Público do estado, tendo projeção nacional.

“O que faz a coisa andar mesmo é o envolvimento das pessoas que colocaram a mão na massa. É uma doação, é uma entrega, não tem horário. A gente fica à noite, sábado e domingo e minha meta é manter ele como está em Cruzeiro do Sul e expandir esse projeto para as cidades de Porto Walter e Marechal Thaumaturgo”, planeja.

Essas são duas cidades isoladas que ficam na região do Juruá. Bueno diz que já começou a articular com algumas pessoas para conseguir alcançar esses jovens, já que nesses municípios não há muita estrutura e oportunidades, mas que guarda um potencial cultural importante.

“Estou tentando adquirir mais instrumentos para levar lá, onde é bastante carente de tudo, e meu sonho é ampliar o conservatório.

Lorana Amaral foi aluna do Conservatório e hoje dá aula no projeto — Foto: Paulo Roberto/Arquivo pessoal

Lorana Amaral foi aluna do Conservatório e hoje dá aula no projeto — Foto: Paulo Roberto/Arquivo pessoal

De alunos a professores

Todos os professores que atuam hoje no conservatório não são formados em música, são autodidatas e contaram ao longo do tempo com uma espécie de capacitação com parcerias com professores da Universidade Federal do Acre (Ufac).

A estrutura do conservatório atual nada se assemelha ao prédio abandonado que esses voluntários receberam. Além das salas de música, algumas com isolamento acústico – como o caso da de bateria, conta com instrumentos de ponta e um estúdio que não é encontrado nem na capital do estado.

Além disso, os professores também dão aulas para os adolescente que cumprem medida socioeducativa no Instituto Socioeducativo do Acre (ISE), atuando também na ressocialização.

Agnaldo Rodrigues é professor de bateria e chegou ao projeto porque fazia parte do Exército. Hoje, ele faz parte da equipe do projeto. Ele conta que muitos alunos optam por ficar o tempo livre no espaço.

“Muitas vezes eu termino a aula e eles ficam treinando mais ou conversando. Gostam muito de ficar aqui, passar o tempo, conversar”, conta.

Ele diz ainda que muitos alunos chegam com a ideia de um instrumento, mas que ao avaliar descobre-se outra habilidade ou mais de uma. “O que a gente faz aqui é encontrar o dom daquele jovem. Às vezes chega querendo um instrumento de sopro, por exemplo, mas ao conhecer os outros acaba querendo aprender outras coisas.”

Foi assim com Tailso Pascoa, de 17 anos. Ele ficou sabendo do projeto na escola e já faz aula de bateria há alguns anos, mas não foi esse instrumento que o fez procurar o conservatório.

“Passaram na escola que eu estudava falando do projeto e aí eu queria tocar instrumento de sopro, mas quando tive o contato com a bateria sabia que era isso que eu devia fazer”, relembra.

Ele confirma que o espaço é onde ele tem apoio e incentivo. Além disso, hoje ele é motivado pela música. “É um projeto muito importante, porque o tempo que a gente podia estar na rua fazendo outra coisa, ou estando ocioso, mas a gente tá aqui aprendendo e quando eu não estou aqui o pastor da minha igreja também deixa eu ensaiar na bateria de lá”, diz.

E, às vezes, a história dos alunos se confunde com a dos professores. Como é o caso da Lorana Amaral, de 18 anos. Um dia ela foi aluna, mas hoje é professora de piano do conservatório e diz que esse projeto é muito importante.

“Eu fui ajudada pelo projeto e hoje consigo ajudar outros jovens também. Para mim, é uma oportunidade incrível, porque eu jamais imaginei que um dia eu poderia dizer que consigo viver da música”, diz emocionada.

Paulo Roberto é professor de contrabaixo. Ele diz que é muito importante esse tipo de projeto, principalmente porque muitos jovens acabam indo para o crime organizado.

“Vem amparar e ensinar arte para uma faixa etária que, muitas vezes, acaba indo para o crime organizado. Então aqui eles podem aprender e futuramente até se desenvolver como profissionais”, pontua.

Natanel Assunção é professor e dá aulas de violino no conservatório. Ele conta que os jovens chegam com gás para aprender. “É uma oportunidade muito importante para eles. Muitos nem sequer conheciam um violino antes. Então, poder fazer parte disso é gratificante.”

Foi no conservatório que nasceu a banda Garotos do Sótão, que se apresenta também em eventos particulares  — Foto: Divulgação/banda

Foi no conservatório que nasceu a banda Garotos do Sótão, que se apresenta também em eventos particulares — Foto: Divulgação/banda

Garotos do Sótão e The Voice

O projeto deu centenas de frutos e um deles foi a banda Garotos do Sótão, que reúne os professores e outros profissionais da música e fazem apresentações pelo estado. O grupo faz cover e se apresenta em festas particulares, como formaturas, casamentos e aniversários.

E os ensaios e até apresentações ocorrem também no conservatório, no sótão – por isso originou o nome da banda. O espaço é aconchegante, tem porta em formato de piano e é um ambiente de muita descontração.

Um dos vocalista da banda é Gustavo Matias, que foi finalista do The Voice Brasil. De família humilde, o jovem entrou para o conservatório em 2016 como aluno de canto, se destacou e passou a dar aulas e logo depois foi contratado pelo MP para atuar no local devido à sua dedicação. Para ele, estar hoje no conservatório é fazer com que outros jovens tenham a mesma possibilidade que ele.

“O projeto mudou minha vida completamente e hoje eu posso fazer isso, para que outros jovens possam chegar onde eu cheguei. Foi aqui que eu consegui me desenvolver e ter notoriedade, então eu quero ser uma ponte para isso.”

Outro vocalista é Fernando Cavalcante que, além de dar voz ao grupo, também é professor de violão. “Esse aqui é um projeto que muda vidas e é muito importante, porque a gente não ensina só música, é uma oportunidade de mudar a vida”, destaca.

Ideia é expandir o projeto do MP para pelo menos mais duas cidades do Acre, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter  — Foto: Paulo Roberto/Arquivo pessoal

Ideia é expandir o projeto do MP para pelo menos mais duas cidades do Acre, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter — Foto: Paulo Roberto/Arquivo pessoal

O projeto já conseguiu emplacar três participantes no The Voice Brasil, tendo Gustavo na final. Também em 2020, Loren Medeiros, que era do coral, também se apresentou no palco do programa.

“A gente vê que as pessoas de Cruzeiro do Sul tem um talento muito especial, musical, instrumental, e as vozes das pessoas dessa região são muito afinadas. Todos os nossos professores, ninguém é formado em nada, tudo foi tirado de ouvido ou no sacrifício e todos eles não sabiam o que era U2 há um ano e hoje são o melhor cover de U2 que eu já ouvi na vida, só ouvindo pra crer. E o Juruá tem um potência de cultura, não só de música, mas de dança e teatro”, pontua o promotor.

Mesmo estando hoje, digamos, em uma posição confortável, com uma estrutura legal e uma equipe que mergulhou no projeto, o promotor acredita que o desafio sempre é manter tudo isso funcionando em sintonia.

“A ideia é que os alunos saiam para o Exército, para a banda de música, gerando emprego, dando futuro para eles, ou até mesmo como professor particular. Estamos dando uma ferramenta, agora a principal ferramenta que estamos dando para eles é equilíbrio social, mental, individual, espiritual, porque a música tem esse poder. Sempre falo que qualquer pessoa tem um dom musical, só não descobriu ainda, então tentamos descobrir essa vocação lá e a gente pensa em ver o dom, tenta trabalhar esse dom de cada um”, finaliza.

Atualmente, conservatório tem mega estrutura e uma boa equipe de professores  — Foto: Paulo Roberto/Arquivo pessoal

Atualmente, conservatório tem mega estrutura e uma boa equipe de professores — Foto: Paulo Roberto/Arquivo pessoal

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