12 de agosto de 2022   |   02:00  |  

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Na Arábia Saudita, Biden diz ter pressionado Bin Salman sobre assassinato de jornalista

Presidente americano disse acreditar que o príncipe herdeiro é o responsável pela execução; ponto central da viagem é a busca por concessões das monarquias do Golfo para reduzir os preços do petróleo.

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O presidente dos EUA, Joe Biden, chegou nesta sexta-feira à Arábia Saudita, na mais aguardada e questionada escala de seu giro pelo Oriente Médio, e ouviu do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, que ele não tem qualquer tipo de envolvimento com o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, executado e esquartejado no consulado saudita em Istambul, em 2018. Ao mesmo tempo, o líder americano prometeu uma resposta à monarquia árabe caso ocorram novas mortes de dissidentes, e disse acreditar que Bin Salman era responsável pela execução.

— Ele me disse que não era responsável e que tomou medidas contra aqueles que via como os responsáveis. Também falamos sobre como ele lida com as críticas ao governo saudita, e ao que outros países veem como violações dos direitos humanos — disse Biden após a reunião com Bin Salman. — O que ocorreu com Khashoggi foi escandaloso, e deixei claro que, se ocorrer algo assim novamente, haverá uma resposta e muito mais.

O histórico de violações dos direitos humanos por Riad foi apontado como uma razão para que Biden evitasse a viagem à Arábia Saudita— no passado, o presidente sugeriu que o país era um “Estado pária”, mas interesses econômicos e estratégicos pesaram mais. A Casa Branca considera a visita uma chance para convencer as monarquias produtoras de petróleo do Golfo Pérsico a elevarem suas ofertas, no momento em que o preço do barril está em cerca de US$ 100, impulsionando a alta da inflação em todo o planeta.

Biden pousou no aeroporto de Jedá no final da tarde, pelo horário local, em um voo marcado pelo simbolismo: ele foi o primeiro líder americano a voar diretamente de Israel, primeira escala da viagem, à Arábia Saudita. Em 2017, seu antecessor, Donald Trump, fez o oposto, saindo do país árabe em direção a Tel Aviv. Na véspera da chegada, o governo saudita anunciou a abertura de seu espaço aéreo a todas as empresas, incluindo as israelenses, no que foi visto como um ato de boa vontade de Riad.

No primeiro compromisso, o americano foi recebido por Bin Salman no Palácio al-Salam, um complexo que se espalha por 60 mil m². Pouco depois da confirmação da viagem, em junho, a Casa Branca afirmou que não estava previsto um encontro entre ele e Biden — há alguns dias, Washington mudou de posição, e disse que estariam frente a frente em uma reunião de trabalho envolvendo representantes do governo saudita.

No ano passado, Bin Salman foi apontado por um relatório da Inteligência dos EUA como o responsável por autorizar a execução de Jamal Khashoggi, opositor do governo saudita que vivia em Washington. O corpo dele jamais foi encontrado. No primeiro contato em Jedá, Biden e Bin Salman não apertaram as mãos, apenas bateram os punhos, no que foi descrito pela Casa Branca como uma medida de proteção contra a Covid-19.

Antes do início da reunião, jornalistas que acompanham a viagem perguntaram a Bin Salman se “a Arábia Saudita ainda é um pária”, ou se ele pedirá desculpas à família de Khashoggi. Ele não respondeu, dando apenas um leve sorriso após as perguntas. Biden, depois da reunião, reiterou acreditar que o príncipe herdeiro tem responsabilidade pela morte do jornalista, mas não deu revelou o tom exato da conversa entre os dois.

Críticas à visita

Pouco antes do pronunciamento de Biden, a noiva de Khashoggi escreveu, no Twitter, que Biden carrega nas mãos o sangue das vítimas do regime saudita. “É esta a forma de prestar contas que você prometeu pelo assassinato? Você carrega em suas mãos o sangue da próxima vítima de MBS”, escreveu Hatice Cengiz, usando as iniciais de Bin Salman.

Organizações de defesa dos direitos humanos também consideraram o encontro “inaceitável”: em entrevista ao Washington Post, Kenneth Roth, presidente da Human Rights Watch, disse que a imagem dos dois líderes se cumprimentando “sugere que o príncipe herdeiro agora foi aceito”.

Em sua fala, Biden destacou ainda uma série de acordos firmados entre os dois países, incluindo investimentos nas tecnologias 5G e 6G como forma de conter o avanço chinês no setor, ações para o desenvolvimento de fontes sustentáveis de energia, e a participação dos sauditas e demais nações árabes no plano global de investimentos anunciado pelo Grupo dos 7 (G7) no mês passado — a proposta é mais uma tentativa liderada pelos EUA de se contrapor à iniciativa Cinturão e Rota, pilar central da política externa e comercial chinesa.

— O ponto central dessa viagem é posicionar novamente os EUA nessa região, com olhos para o futuro. Não vamos deixar um vácuo no Oriente Médio para que Rússia e China preencham — disse Biden.

Nova postura

A rápida mudança de posição em relação aos sauditas, considerados aliados históricos dos EUA no Oriente Médio, atendeu a uma necessidade urgente de Washington. A invasão russa à Ucrânia e a decisão americana de suspender as importações de petróleo da Rússia intensificou uma tendência de alta nos preços internacionais de petróleo.

Os efeitos passaram a ser sentidos nas bombas de combustíveis dos americanos, contribuindo para a maior inflação em mais de quatro décadas no país, algo que deve impactar negativamente os democratas nas eleições de novembro, quando os republicanos podem retomar o controle das duas Casas do Congresso.

No pronunciamento, Biden não quis detalhar quais acertos foram feitos no setor de petróleo, ou mesmo se foi feito algum, e se limitou a dizer que um possível impacto nos preços dos combustíveis poderá ser visto “nas próximas semanas”.

Os países produtores do Golfo Pérsico, com os quais se encontrará no sábado, em uma reunião de cúpula, não dão sinais de que estejam dispostos a ampliar sua oferta. Analistas também questionam se um eventual aumento do produto no mercado terá algum efeito nos preços ou se as nações árabes ainda têm capacidade ociosa em suas unidades de produção.

O presidente também seguirá uma agenda de segurança regional: em Jedá, tenta fortalecer uma aliança contra o Irã, acusado por Washington e seus aliados de ser o principal elemento de desestabilização no Oriente Médio. A Casa Branca busca consensos sobre a criação de um sistema integrado de defesa contra ataques iranianos, que poderia incluir Israel, mas não há sinais de que isso possa ser anunciado em curto prazo.

Segundo Biden, as razões para a visita eram “muito mais amplas”, e seriam uma forma de corrigir o que considerou ser “um erro”, se referindo à decisão dos EUA de deixar o Oriente Médio em segundo plano na sua diplomacia, dando mais ênfase à China.

Por O Globo

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