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MPF e Ministério da Saúde investigam desvio de vacinas em troca de ouro na Terra Yanomami

Associação Hutukura Yanomami afirma que ao menos dois servidores desviam vacinas e outros insumos do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami em troca de ouro. Relata, ainda, que os servidores imunizaram garimpeiros contra a Covid-19.

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O Ministério Público Federal e o Ministério da Saúde informaram nesta quarta-feira (14) que investigam desvio de vacinas destinadas aos indígenas em troca de ouro extraído ilegalmente da Terra Yanomami. A Associação Hutukura Yanomami relata que ao menos dois servidores são suspeitos de usar os imunizantes contra Covid-19 em garimpeiros.

Nenhum servidor foi afastado das funções, conforme o coordenador do Distrito Sanitário Especial Yanomami (Dsei-Y), Rômulo Pinheiro. Ele afirmou à Rede Amazônica que está ouvindo os suspeitos e que se as denúncias forem confirmadas, o caso será registrado em órgãos federais.

“Esta denúncia está sendo apurada e averiguada. Caso se confirme, o Distrito Sanitário vai tomar todas as medidas cabíveis administrativas e penais, apresentando este crime à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal”, afirmou o coordenador do Dsei-Y.

Em ofício enviado ao MPF e à Sesai, o vice-presidente da Hutukura, Dário Kopenawa, relata que uma técnica em enfermagem, que atuava no pólo base Humuxi, estava trocando as vacinas com os invasores da terra indígena, além de desviar gasolina e um gerador de energia para os garimpeiros também em troca de ouro.

Kopenawa também denunciou ao MPF que, na região do Uxiu, uma servidora é suspeita de desviar medicamentos destinados aos indígenas para tratar garimpeiros à noite. E em uma rede social criticou a exploração ilegal do ouro, o desvio das vacinas e cobrou providências.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

“É um absurdo que garimpeiros estejam tomando a nossa vacina contra a Covid-19 em troca de ouro, ouro que é ilegal, que não deveria ser retirado da nossa terra. Por isso exigimos explicações urgente da Sesai e Dsei-Y”, escreveu Dário Kopenawa.

Já o MPF disse que já investigava desvio de vacinas para indígenas e que a denúncia de troca do imunizante por ouro é um mais um caso que deve ser incluído na apuração, que é chefiada pelo procurador do MPF, Alisson Marugal. Nenhum dos órgãos informou se há prazo para cumprir as investigações.

Território isolado dificulta fiscalização

 Cerca de 27 mil indígenas vivem na Terra Indígena Yanomami — Foto: Reprodução/ Hutukara Associação Yanomami

Cerca de 27 mil indígenas vivem na Terra Indígena Yanomami — Foto: Reprodução/ Hutukara Associação Yanomami

O coordenador do Dsei-Y afirmou, ainda, que teve ciência da situação em uma reunião no dia 5 de abril com lideranças indígenas, em que representantes do MPF também estiveram presentes. Ainda não há uma estimativa de quantas doses podem ter sido desviadas porque há dificuldade para acessar o território indígena e fiscalizar o trabalho das equipes.

“Somos a maior reserva indígena do Brasil e muitos não conhecem a realidade do Distrito Sanitário Yanomami. Para se ter ideia, nossa logística é 98% aérea, não se entra na reserva Yanomami de outra forma. Os profissionais são distribuídos em vários polos em várias comunidades. Este trabalho de fiscalização muitas vezes não chega na velocidade que queremos”, disse.

A suspeita de desvios iniciou em janeiro, logo após as vacinas começarem a ser aplicadas em Roraima. Segundo o documento, autoridades em Boa Vista foram alertadas sobre o caso para que tomassem providências.

Maior reserva indígena do Brasil, a Terra Yanomami fica entre os estados de Roraima e Amazonas, e em boa parte da fronteira com a Venezuela. Mais de 26,7 mil índios – incluindo grupos isolados – habitam a região em cerca de 360 aldeias. A estimativa é que ao menos 20 mil garimpeiros atuam ilegalmente no território.

“O povo Yanomami é seminômade, muitas vezes chegamos à comunidade e eles já se mudaram ou saíram para pescar ou caçar. Isto dificulta um pouco o trabalho da equipe porque quando ocorre a missão é preciso levar a vacina em um isopor térmico com gelo, e se o indígena não está, é preciso voltar ao polo base e tentar vacinar em outro dia”, explicou Rômulo Pinheiro sobre a dificuldade de aplicar as doses.

Até esta quarta, o governo do estado havia enviado 15.396 doses de vacina contra a Covid-19 para o Dsei-Yanomami. Dessas, apenas 3.302 (21,45% do total) foram aplicadas. Os dados são do vacinômetro, do site do governo que divulga a aplicação dos imunizantes.

Fake news sobre vacina

Além da troca por ouro de garimpo ilegal, os indígenas enfrentam, ainda, a disseminação de informações falsas sobre a vacina, segundo a Hutukura. O resultado: nove aldeias se recusam veemente à serem imunizadas contra o coronavírus, mesmo que autoridades apontem para o risco de genocídio.

“‘Vocês, Yanomami, não podem tomar essas vacinas, porque o governo quer matar vocês’, é o que os garimpeiros estão espalhando e, por isso, os nossos parentes estão recusando as vacinas. Já as comunidades que não estão próximas ao garimpo, estão tomando”, afirma Dario.

Com a recusa dos indígenas pela vacinação, o Conselho Municipal de Saúde de Boa Vista chegou a recomendar que o estoque de doses da vacina contra Covid-19 destinadas aos indígenas, seja remanejados para a população urbana da capital.

Quando as primeiras doses chegaram ao estado, em janeiro, o governo estadual triplicou o número de doses da vacina contra Covid-19 para profissionais da Saúde e reduziu a quantidade para indígenas que vivem no estado.

G1 RORAIMA

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Redação Juruá Online

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