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    Prenúncio de novas rebeliões no Irã

    Uma nova onda de protestos fez do Irã, por uma semana, um país offline, com o blecaute dos serviços de internet enquanto o regime promovia a costumeira repressão brutal contra manifestantes que se insurgiram contra o aumento de 50% no preço da gasolina subsidiada.

    A linha dura comandada pelos aiatolás tentou desconectar a rede de insatisfação para evitar que a rebelião se espalhasse. Contudo, vídeos que chegaram ao exterior exibiram uma escala de violência superior à registrada em movimentos anteriores, com pelo menos 208 mortos em duas semanas, de acordo com a Anistia Internacional. Já o Conselho Nacional de Resistência do Irã contabilizou 750 mortos e 12 mil presos em 187 cidades e localidades.

    Esse coquetel de insatisfação popular e força bruta agora é energizado pelo colapso econômico decorrente da reintrodução de sanções aplicadas pelos EUA, que há um ano e meio impossibilitam o Irã de vender petróleo ao exterior.

    O governo Trump abandonou unilateralmente o acordo nuclear assinado em 2015 entre Irã e seis potências nucleares. E recrudesceu punições à república islâmica com a intenção de minar seu papel regional. O Irã, por sua vez, afrouxou seus compromissos em relação ao enriquecimento de urânio e condiciona o retorno às negociações à suspensão das sanções. Nenhum dos lados avança.

    Sem a sua principal fonte de receita, o governo comandado por Hassan Rouhani apelou para cortes de subsídios à população. Impôs sacrifícios justamente no preço do combustível, apesar de deter a quarta maior reserva de petróleo no mundo.

    O aumento veio disfarçado sob a promessa de que a arrecadação seria revertida em compensações às 18 milhões de famílias pobres do país. Foi o suficiente para desencadear protestos espontâneos, combatidos prontamente por agentes de forças de segurança com disparos a curta distância e espancamentos sobre manifestantes.

    A margem de manobra da teocracia para conter o descontentamento popular se estreita a cada nova onda de protestos. Em 2009, o governo sufocou a conhecida Revolução Verde, deflagrada contra as eleições fraudulentas que deram vitória ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. Mais de 70 manifestantes morreram, e os líderes dos protestos foram presos.

    No fim de 2017, o estopim foi o aumento de 40% no preço do ovo e das aves para consumo, que levou milhares às ruas, evidenciando o agravamento da crise econômica, com inflação e desemprego em alta. Em ambos os movimentos, o regime reagiu com truculência e apagão digital.

    Nos protestos que começaram dia 15 passado, os mais significativos em 40 anos, os manifestantes foram chamados pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de terroristas, agentes infiltrados ou marionetes dos EUA. Mas, pela primeira vez, a TV estatal reconheceu ter atuado com violência contra “bandidos” armados por terem atacado bancos, postos de gasolina e instalações militares com armas de fogo.

    Em prisão domiciliar, o ex-premiê Mir Hussein Moussavi, líder da Revolução Verde, ousou ao comparar o xá Reza Pahlavi ao aiatolá Ali Khamenei – ao menos no que diz respeito à frustração popular e aos métodos truculentos que levaram à queda da monarquia há quatro décadas:

    “Os assassinos de 1978 foram os representantes de um regime não religioso, e os agentes de 2019 representam um governo religioso.”

    A imagem vilanizada do inimigo externo, como agente promotor de sanções e austeridade impostas à população, parece não surtir entre os iranianos o efeito de comunhão desejado pelo regime. A eclosão da próxima rebelião doméstica, disparada por novo gatilho, é apenas uma questão de tempo.

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