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Cubana encontra acolhimento para a família no Acre após anos de migração

Fuga, repressão, fome, preconceito e horas de caminhada a pé. Essas foram algumas das situações que Hany Cruz de Armas, 27 anos, mulher, mãe e esposa, refugiada política no Brasil desde 2015, vivenciou.
Residindo no Acre há dois anos, Hany, que atualmente possui documentação legalizada no Brasil, contou um pouco de sua trajetória até chegar ao Brasil. “Tivemos que fugir. Meu esposo é preso político cubano, sancionado no ano de 2003 durante a Primavera Negra de Cuba, foi um dos 75 presos políticos e ficou nove anos na cadeia. Quando ele saiu ficamos sendo vigiados”.
Hany também falou como foi difícil para sair de Cuba, já que a maioria dos países exige visto para entrada em seus territórios. Sua primeira estadia foi a ilha de Trinidad e Tobago, próxima à Venezuela, onde morou por três anos.

“Moramos lá durante três anos, foi lá que minha filha nasceu. Porém como a ilha não é assinante da Convenção de Genebra para Refugiados, eles não têm lei para acolher os imigrantes. Fomos acolhidos por uma igreja que está em ligação com a Organização das Nações Unidas (ONU). Para mim, esses anos foram um inferno, eu trabalhava ilegalmente, além de sofrer muito preconceito, tinha muita violência, eu e meu marido fomos assaltados várias vezes”, relatou.

Emocionada, contou também como foi dar à luz a sua filha. “Tive que parir minha filha na sala de pré-parto. Passaram uma mulher que nem estava pronta para dar à luz na minha frente. Pari com uma moça da limpeza, uma enfermeira e um estudante de medicina. Não te deixam levar nem acompanhante”, relatou.
Para sair da ilha, ela teve que pagar mil dólares por cada membro da família. Foram de avião até a Guiana Inglesa, de lá cruzaram a fronteira até o Brasil, numa van com capacidade para 16 pessoas, mas que continha 25. Durante 36 horas, percorreram alguns trechos de estrada de barro, levando no colo a filha de apenas um ano e meio. Próximos de chegar ao Brasil, foi preciso atravessar correndo por uma ponte, pois se a polícia da Guiana os flagrasse seriam presos.

Ao chegar na fronteira do Brasil, em Roraima, foram levados pela Polícia Federal para Boa Vista e logo em seguida encaminhados para Manaus, no Amazonas.

“Chegamos em Manaus sem dinheiro. Dormimos a primeira noite na rodoviária, no dia seguinte procuramos o escritório da ONU, explicamos nossa situação e pediram com urgência o protocolo de refúgio. Durante o processo ficamos na rua, depois procuramos as Cáritas e tivemos a porta fechada na nossa cara porque éramos cubanos e o programa deles só atendia venezuelanos. Comecei a chorar, estava com uma menina de dois anos chorando por leite, entrei em desespero”, relatou.
No entanto, após a apresentação do protocolo de refúgio, a entidade ainda abrigou o casal e a criança durante uma semana e, após o período, fez a doação de R$ 600 para que seguissem viagem. De Manaus seguiram de barco para Porto Velho, em Rondônia, durante cinco dias. De Porto Velho seguiram viagem para Rio Branco com o intuito de estender o percurso até o Peru. Na capital acreana, foram acolhidos pelos Direitos Humanos do Estado e encaminhados para uma casa de passagem, no bairro Irineu Serra. O local, com apenas dois quartos, abrigava 15 adultos e cinco crianças. Foram então amparados pelas Cáritas novamente, mas dessa vez em Rio Branco.

Por conta de todas as situações vivenciadas, Hany desenvolveu problemas de ansiedade e depressão. “Por conta de todas as situações que passei desenvolvi problemas psicológicos, tive crises muito fortes. Foi então que decidi ficar em Rio Branco e não ir para mais nenhum lugar. Comecei um tratamento psicológico com medicamentos, meu marido administrava os remédios, pois tive muitos pensamentos suicidas. Tive que sair pedindo em casas, mercados, para não passar fome. Graças a Deus encontramos pessoas que nos ajudaram”, disse.

Uma oportunidade de emprego surgiu enquanto o casal estava no abrigo. Hany é formada em Engenharia da Informação e seu marido Jose Alberto Guerrero Roque, 53 anos, em Engenharia Mecânica. Ela começou a trabalhar como doméstica e ele como auxiliar de serviço gerais em um residencial da capital, onde José trabalha até hoje. O dono do residencial cedeu um apartamento em um de seus imóveis para que a família morasse.

Hany iniciou o trabalho voluntário com os imigrantes que chegaram no Acre, auxiliando na solicitação de documentos e benefícios, além de trabalhar como doméstica. Durante a pandemia perdeu o emprego e ficou em casa com a filha, o irmão e um tio, vivendo apenas do salário do marido.

Foi nesse período que ela teve uma segunda crise psicológica e retornou ao tratamento. “Fiz um encaminhamento no Caps, até que me estabilizei de novo e parei com os medicamentos, não quero depender deles, apenas de mim e da minha força”, disse.
Por fim, Hany, foi nomeada pelo governo do Estado para atuar na linha de frente da situação de imigrantes no Acre, fortalecendo a integração social e as políticas públicas destinadas a esse público. “Essa é uma oportunidade boa demais, não esperava. Trabalho em algo que gosto, gosto de ajudar aos demais, de conhecer pessoas”, completou.

Fluxo migratório
O cenário político, social e econômico em alguns países tem facilitado um aumento considerável no fluxo migratório. Uma das rotas de passagem ou destino final é o Brasil. Com a Lei nº 13.445/2017, que garante os direitos e deveres de imigrantes e refugiados que entrarem em território nacional.

A lei assegura em seus incisos, uma acolhida humanitária; igualdade de tratamento e de oportunidade ao migrante e a seus familiares; proteção integral e atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante; acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social, entre outros direitos e deveres.

Acre
No Acre, do segundo semestre de 2010 até maio de 2020, cerca de 44.012 pessoas, oriundas de 36 nacionalidades, receberam algum tipo de apoio, orientação ou encaminhamento para a rede de atendimento assistencial, por parte do órgão gestor da política estadual de Direitos Humanos, atualmente a Secretaria de Estado de Assistência Social, dos Direitos Humanos e de Política para as Mulheres (SEASDHM). Até maio de 2020, foram identificadas no estado 377 pessoas entre migrantes e refugiados, distribuídos em vários locais na capital e no interior.

“A inclusão da Hany na nossa equipe consiste na união de forças para garantir a implantação das políticas de direitos para os imigrantes. É importante termos na secretaria alguém que já passou por situação semelhante aos demais. O governo do Estado tem o compromisso de assegurar às pessoas que estão em situação de vulnerabilidade o melhor tratamento. O que está em nosso alcance estamos fazendo e sempre buscando o melhor”, destacou a secretária de estado de Assistência Social, dos Direitos Humanos e de Políticas para as Mulheres, Ana Paula Lima.
A SEASDHM possui um Núcleo de Apoio a Migrantes e Refugiados que atua diretamente na promoção de políticas de direitos humanos. As ações visam garantir vida digna aos migrantes, refugiados e apátridas, o que envolve a entrega de cestas básicas, saúde, assistência social e segurança.
Desde março deste ano, a secretaria abriga 70 venezuelanos indígenas da etnia warao, na escola Campos Pereira, na Cidade do Povo. O abrigo recebe auxílio do Estado com medidas socioassistenciais, saúde, segurança e alimentação, cestas básicas, apoio técnico diariamente e entrega de refeições no almoço.
As ações são executadas entre Estado, SEASDHM e Gabinete da Primeira-Dama. Em abril, o município de Assis Brasil recebeu 244 imigrantes, entre eles haitianos, paquistaneses, senegaleses e angolanos, que ficaram abrigados na Escola Estadual Íris Célia Cabanelas Zanini e Escola Municipal Edilsa Maria Batista, e foram assistidos com cestas básicas, colchões, fraldas, apoio técnico, saúde e segurança.

 

 

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