1 de julho de 2022   |   23:23  |  

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Idosos: é possível diminuir a quantidade de remédios?

Nossa medicina olha para o paciente como pedaços, e não como um todo.

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Quando sua mãe completou 93 anos, em 2018, a americana Leslie Hawkins percebeu que havia algo de errado. Apesar dos problemas de saúde, como diabetes, hipertensão e ansiedade, sua mãe sempre havia sido uma senhora ativa, sociável, frequentadora da igreja, como contou ao jornal The New York Times. Mas durante a celebração do aniversário, ela “não conseguia manter uma conversa ou mesmo terminar uma frase”. Ao levá-la a um geriatra, junto aos 14 remédios que a mãe tomava regularmente, Hawkins descobriu os perigos do excesso de medicamentos.

Conhecido como polifarmácia, o consumo múltiplo de remédios por uma pessoa reúne números alarmantes no Brasil e no mundo. A médica brasileira Martha Oliveira, que é especialista em envelhecimento, fez um doutorado em gestão de sistemas de saúde para idosos quando a Europa começou a jogar luz nesse tema. “Alguns países prepararam um documento com dados e informações sobre polifarmácia no continente, o que está sendo feito e como melhorar. E colocaram alguns compromissos para 2030”, explica.

Segundo o levantamento, há 8,6 milhões de internações não planejadas por ano em hospitais europeus causadas por eventos adversos a medicamentos, sendo que 50% destas são evitáveis, e 70%, em pacientes maiores de 65 anos e que tomam cinco ou mais remédios. “O que mais me assustou é que, estudando o caso do Brasil, percebi que aqui temos números ainda mais preocupantes.”

Martha Oliveira é fundadora da Laços Saúde, uma empresa que oferece cuidado domiciliar para idosos, e os pacientes que chegam até ela consomem, em média, 16 medicamentos regularmente. Enquanto no exterior já existem algumas organizações que lutam pelo “deprescribing”, ou desprescrição, em português, que consiste em reavaliar e suspender doses desnecessárias na rotina de remédios de uma pessoa, o Brasil carece de iniciativas similares. E no caso da mãe de Leslie Hawkins, foi justamente o interrompimento de certos medicamentos que fez com que ela, dez meses mais tarde, “fosse outra pessoa, completamente diferente” – as tonturas cessaram, ela se comunicava melhor e tinha mais energia.

Mas por que os idosos recebem tantas prescrições, quais são os perigos e consequências da polifarmácia e quando é necessário tentar evitá-la? Veja algumas explicações sobre o assunto:

Um sistema fragmentado

Um dos principais motivos por trás da quantidade excessiva de remédios prescritos a idosos é a medicina especializada. “Ao longo da vida fomos acostumados a procurar profissionais de saúde relacionados a um sintoma específico”, afirma o geriatra Carlos Uheara, que é diretor geral do INTS (Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde). “O cuidado com a saúde é, para a maioria das pessoas, muito fragmentado. Nossa medicina olha para o paciente como pedaços, e não como um todo.” Por isso, buscamos um neurologista quando temos dor de cabeça; um cardiologista em caso de pressão alta; e um endocrinologista, se houver um aumento no nível de açúcar no sangue.

Porém, se um idoso passar a consumir todos os três remédios – para dor de cabeça, hipertensão e diabetes, por exemplo – é preciso atenção. Um dos efeitos da mistura podem ser as interações medicamentosas, isto é, uma reação negativa do corpo à junção de diferentes remédios. O mesmo pode acontecer ao combinar medicações e certos tipos de alimentos, e a automedicação é outro agravante. “Muitos pacientes tomam misturas feitas em casas, chás, fitoterápicos, ou até remédios comprados em farmácia, mas sem prescrição médica, e acham que não há interação.”

Outra questão, segundo Uheara, é o que ele chama de cascata iatrogênica. “É quando um paciente toma um remédio para dor e fica com prisão de ventre”, exemplifica. “Aí dou um novo medicamento para o intestino, que assume a função laxante e faz o paciente perder água, desidratar. Vira essa cascata de sintomas.” Ele afirma que já recebeu muitos casos de idosos que chegam ao seu consultório sonolentos, pouco interativos, e que a causa, muitas vezes, é a interação medicamentosa, ou mesmo doses inadequadas de um remédio. “Quando o paciente reclama de um sintoma, é preciso reavaliar tudo que ele consome, e não simplesmente introduzir um novo.”

A médica Martha Oliveira relembra os perigos do excesso de medicamentos: “Bradicardia, tontura e quedas são algumas das consequências. Direta ou indiretamente, pode virar causa de morte em idosos”. Segundo ela, falta integração não apenas dos médicos, mas de todos os profissionais da saúde. “Cada especialista vai olhar um sistema, e eles têm funções muito importantes. Mas é preciso um geriatra ou um clínico geral para analisar com cuidado todas as prescrições, o que já toma, o que realmente precisa, o que pode interagir e dar problema.”

Velhice não é doença

Vide a admirável geração de velhos jovens, sobre um grupo de pessoas que chega aos 70 anos com mais saúde e energia. Mas fato é: para o envelhecimento, não há rota alternativa – só Benjamim Button mesmo que fica cada dia mais jovem. O resto do planeta apenas reúne, a cada ano, mais velas no bolo de aniversário. E, mesmo assim, a sociedade insiste em colocar a velhice como uma enfermidade. “Se envelhecer é sinônimo de adoecer, isso faz com que seja prescrito remédios para os idosos com naturalidade”, diz Oliveira. “Há essa cultura de medicalizar o idoso, e o próprio paciente acha que está correto. Recorre a consultas esperando a prescrição de um medicamento. Nosso sistema de saúde não sabe cuidar da pessoa mais velha.”

O professor, doutor em saúde pública pela USP também aponta para a falta de estrutura e opções de serviços para os mais velhos. “Uma infecção, por exemplo – tratamos com mais facilidade do que uma doença crônica, que demanda mais tempo, assistência e gera um desgaste emocional no paciente.” De acordo com ele, a grande dificuldade da polifarmácia hoje é o aumento da expectativa de vida, os problemas que vem no pacote da idade avançada e o pouco estímulo e acesso a meios que previnem doenças crônicas. “As pessoas não foram ensinadas a terem hábitos salutares, mas foram bem orientadas a tomar comprimidos.”

Ele relembra a importância de também entender o processo de cura, que não é tão rápido, na maioria das vezes, quanto tomar uma pílula que promete acabar com a dor. “No exemplo das doenças crônicas, elas demoram um tempo para surgir. A cura e o manejo da dor é tão lento quanto o adoecimento”, diz. “Um medicamento que tira uma dor na coluna ajuda no sintoma, mas não na causa, que pode ser um músculo fraco, ligamento frouxo, etc.”

Quando é hora de desprescrever

No caso da mãe da americana Leslie Hawkins, interromper o uso de medicamentos — com orientação profissional, é claro — foi o caminho para uma melhor qualidade de vida, mesmo com mais de 90 anos. Dos 14 remédios que ela tomava antes de descobrir os benefícios da desprescrição, a mãe de Hawkings, até o momento da publicação da reportagem do NYT, estava tomando apenas quatro.

A reavaliação de prescrições, suspensão de medicamentos desnecessários, alteração de doses ou troca de remédios – tudo faz parte da desprescrição, que visa manter apenas a medicação essencial para cada paciente. “Tão importante quanto introduzir um medicamento, é saber a hora de suspendê-lo”, afirma Carlos Uheara.

Temos que desaprender que é só com medicamentos que vamos resolver certos problemas

Há idosos que, entretanto, realmente não podem fugir da caixa cheia de remédios para a manutenção da saúde. É por isso que, a prática da desprescrição, é importante dizer, prega o olhar singular para cada pessoa, suas necessidades e sintomas, e retira ou troca medicamentos que foram prescritos sem necessidade. “O envelhecimento é muito heterogêneo. Um grupo de crianças da mesma idade tem características muito semelhantes, enquanto um grupo de idosos é completamente diferente. Vão ter os ativos, que fazem até esporte radical, e os mais sedentários”, diz Uheara. “Na geriatria, o cuidado é heterogêneo também, e leva em conta os vários fatores, de uma vida inteira, que impactam no envelhecimento.”

Alexandre da Silva complementa: “Como a sociedade vê um profissional da saúde que não prescreve? É o contrário do que se espera. Temos que desaprender que é só com medicamentos que vamos resolver certos problemas”. Ele aponta para uma oferta mais adequada de meios não medicamentosos de tratamento, que devem ser pensados caso a caso, de acordo com necessidades e possibilidades de cada idoso.

O exercício da desprescrição não é uma realidade distante. Silva indica alguns caminhos. Primeiro, o diálogo honesto e aberto entre médico e paciente. “Todo tratamento é um pacto. Muitas vezes o profissional pode prescrever um remédio achando que é aquilo que a pessoa quer, quando na verdade não é.”

O segundo ponto, mais a longo prazo e que passa pelo poder público e implementação de políticas de infraestrutura e assistência, é oferecer serviços e estimular a prática de hábitos salutares. “A indústria farmacêutica vai sempre criar e receitar pílulas para sintomas. Uma gastrite causada por ansiedade, impotência sexual que é efeito de questões emocionais e pressões sociais. O remédio vai tratar o sintoma, mas a causa é muito mais ampla”, finaliza.

O primeiro passo é escolher um geriatra ou clínico geral que possa acompanhar o paciente como um todo. Especialistas são importantes, mas o papel do médico generalista é analisar todas as prescrições e prevenir combinações perigosas, perceber efeitos colaterais que podem ser evitados e ajustar medicações. Se o idoso não tiver plena autonomia para ir a uma consulta sozinho, é importante que vá sempre acompanhado de um cuidador ou familiar, que esteja apto a conversar com o médico, entender a rotina de medicamentos, explicar os sintomas e tirar dúvidas. O geriatra Carlos Uheara indica levar toda a caixa de remédios que aquele idoso consome para a consulta com o médico generalista – inclusive aqueles que parecem totalmente inofensivos. É possível também ajudar o idoso a ler a bula

Via UOL Notícias

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