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Crime da Motosserra: 25 anos depois, Justiça do AC marca novo julgamento de primo do ex-coronel da PM

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O conhecido Crime da Motosserra vai ter um novo julgamento no próximo dia 26 na 1ª Vara do Tribunal do Júri. Neste novo julgamento, serão ouvidas cinco testemunhas de acusação e mais cinco de defesa. Quem senta na cadeira do réu desta vez é Aureliano Pascoal Duarte Pinheiro Neto, acusado de homicídio contra Agilson Firmino dos Santos, mais conhecido como Baiano. Além disso, ele deve responder também por motivo torpe, tortura e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

Na época, Aureliano era comandante da PM no estado.No primeiro julgamento em 2009, ele havia sido absolvido, decidiu realizar um novo julgamento para Aureliano Pascoal Duarte Neto.

A juíza que deve presidir o julgamento é Luana Campos. O julgamento está marcado para às 8h30 na 1ª Vara do Tribunal do Júri.

Hildebrando Pascoal é acusado de liderar o Esquadrão da Morte, grupo de extermínio que atuou no Acre durante os anos 90 e que foi responsável pelo “crime da motosserra”.

No processo, os dois advogados que representavam o acusado pediram afastamento do caso e, por isso, o g1 não conseguiu contato com a defesa.

Já a filha da vítima, que hoje mora na Bahia, Emanuela Firmino, diz que essa é mais uma chance de Justiça e que o Estado também pague pelo dano causado.

“Em 2009, na época do julgamento foi falado que a página negra do estado do Acre estava sendo virada e nessa mesma época acreditamos também, que, além do julgamento também seríamos indenizados. Não que isso traga paz ao nosso coração, porém minha mãe precisa de cuidados, pois ela ficou abalada fisicamente e psicologicamente. Minha mãe perdeu toda base familiar,perdeu um filho. Na época não pôde ter apoio psicológico e até hoje sinto a tristeza no olhar dela. Esperávamos que o Estado arcasse com todo mal que fizeram à minha família”, disse.

Ela acredita que um novo julgamento deve chamar atenção novamente para o caso.

“Com este novo julgamento,surge uma nova esperança de justiça para todos aqueles que acabaram com nossa família, que acabaram com um sonho de uma mãe e de dois adolescentes”, finaliza.

Esquartejamento, ácido e tortura: Crime da Motosserra no AC faz 25 anos  — Foto: Arquivo pessoal

Esquartejamento, ácido e tortura: Crime da Motosserra no AC faz 25 anos — Foto: Arquivo pessoal

Entenda

Passados 25 anos, ela ainda chora ao lembrar como achou o corpo do filho e do marido. Na época, ela e Agilson, que ficou conhecido como Baiano, tinham se mudado para o Acre em busca de melhorar de vida, montando um restaurante de comidas típicas nordestinas.

Já no estado acreano, o casal conheceu José Hugo, o homem que matou com um tiro o irmão de Hildebrando, Itamar Pascoal, em 30 de junho de 1996. Desde a morte do irmão, Hildebrando, que ocupava o Comando da PM na época, iniciou uma caçada para encontrar o autor do crime.

Baiano foi perseguido após presenciar a morte do irmão de Pascoal. De acordo com o processo, Firmino foi torturado até morrer, tendo seus membros amputados com uma motosserra e os olhos perfurados.

Já o filho de Baiano, o menino de 13 anos, teve o corpo queimado com ácido, além de ter recebido alguns disparos de arma de fogo.

Atualmente, Evanilda e os dois filhos que conseguiram voltar para o estado da Bahia, de onde eram naturais, reclamam do abandono e omissão do estado. Como na época, o ex-coronel ocupava um cargo de confiança no governo e criou um grupo de extermínio dentro da própria polícia, a família acredita que merece uma reparação pela perda dos dois familiares.

Aureliano durante julgamento em 2009 — Foto: Arquivo TJ-AC

Aureliano durante julgamento em 2009 — Foto: Arquivo TJ-AC

‘Não esqueço’

Todos os dias a aposentada revive a noite em que o marido e o filho desapareceram e foram encontrados vítimas de um crime brutal.

“Lembro de tudo, como se fosse hoje”.

“Procuraram meu marido para dar conta de Hugo, mas meu marido não sabia onde ele estava. Conhecemos o Hugo no Acre, porque tínhamos o restaurante e ele sempre comia lá, e também fomos na casa dele umas duas vezes”, conta.

Mesmo assim, o grupo perseguiu o autônomo, que foi pego em uma oficina onde consertava um carro para seguir viagem em busca de um lugar para reabrir o restaurante. Por esse motivo, por muitos anos, foi divulgado que a vítima era mecânico, o que é negado pela viúva.

Depois que o grupo manteve o homem preso, Evanilda conta que policiais à paisana foram até a casa onde morava e disseram que o marido havia sofrido um acidente porque estava dirigindo bêbado.

Ele relembra que, no primeiro momento, eles queriam levar um dos filhos do casal, mas ela impediu porque todos eram menores de idade.

“Eles no carro estavam todos armados até os dentes e iam me ameaçando. Quando perguntava o que estava acontecendo, eles mandavam eu me calar”, conta.

Evanilda lembra que foi levada para o quartel da PM, onde passou pouco mais de uma hora. Nesse intervalo, outro grupo foi até a casa dela, onde os filhos de Firmino estavam e disseram que precisavam que um filho acompanhasse.

Na época, Emanuela Firmino, que também era adolescente, se ofereceu para ir com os policiais, mas eles não aceitaram.

“Disseram que tinha que ser um dos meninos e o Wilder se predispôs a ir. Me levaram de volta pra casa, mas desviando o caminho para eu não ver que estavam com meu filho em outra viatura. Só quando cheguei em casa, e a Emanuela perguntou onde estava o Wilder, foi que soube que eles tinham levado o menino”, conta.

Na época, a aposentada não tinha muita informação, mas ela conta que o filho tinha necessidades especiais e acredita que se tratava de um grau de autismo, baseado em dados que têm acesso agora.

Durante toda a noite, Evanilda ficou procurando o filho e o marido. Somente no dia seguinte, foi informada pelo Conselho Tutelar que havia sido achado um corpo na estrada e que poderia ser de Wilder.

“Além de colocar ácido muriático no menino, ainda atiraram nele. Eles usaram de todos os requintes de perversidade que eles puderam”, relembra antes de uma longa pausa entre lágrimas.

Hildebrando Pascoal na época em que era coronel da PM e foi acusado por liderar grupo de extermínio  — Foto: Reprodução/Facebook

Hildebrando Pascoal na época em que era coronel da PM e foi acusado por liderar grupo de extermínio — Foto: Reprodução/Facebook

Pensão só no papel

O ofício, destinado ao procurador-geral de Justiça do MP-AC, Oswaldo D’albuquerque Lima Neto, pedia que o órgão propusesse uma lei que amparasse a família da vítima.

“Os fatos retratam a barbárie e selvageria cometida por agentes do Estado, usando a estrutura do Estado, para fazer justiça com as próprias mãos. Por omissão do Estado, essa brutalidade foi perpetrada e a mera condenação dos autores e partícipes destes crimes não é o suficiente para reparar os danos sofridos pelos familiares, que merecem e fazem jus a uma indenização para que possam tratar os traumas e sequelas deixados pela ação violenta e reparar, ao menos em parte, o sofrimento imposto a esta família”, destaca o documento.

G1 tentou ouvir os membros do Gaeco para saber mais informações sobre o pedido e o andamento do processo no órgão, mas foi informado pela assessoria de comunicação que eles não iriam se pronunciar sobre o caso. Na Procuradoria-geral do estado, a reportagem foi informada de que não há nada sobre o pedido em andamento.

Para a aposentada, a pensão seria uma forma de garantir uma reparação pelos danos causados ao perder o marido. Desde a morte dele, ela nunca mais casou e teve que trabalhar como empregada doméstica para criar os dois filhos.

Na época do crime, ela e as duas crianças saíram fugidos do Acre apenas com a roupa do corpo.

“Não carrego revolta, nem ódio de ninguém, tá na mão de Deus. Não tem justiça que pague o que eles fizeram, só entrego a Deus. Acredito que um dia, se tiver direito a alguma coisa, vou ter, mas não carrego revolta, nem raiva de ninguém, nem dele [Hildebrando]. Só queria que meus filhos tivessem uma vida mais tranquila, porque a gente sabe o que passou para sobreviver”, lamenta.

Via-G1

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Redação Juruá Online

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