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Astronautas que foram à Lua em 1969 precisaram ficar isolados em quarentena

Poucas semanas depois de se tornar o primeiro homem a andar na lua, o astronauta Neil Armstrong, da Nasa (a agência espacial dos Estados Unidos) comemorou o 39º aniversário em quarentena.

Isso é algo que todos nós experimentamos após um ano vivendo em meio a uma pandemia, mas é muito improvável que muitos outros aniversários tenham sido celebrados em quarentena em 1969.

A razão para essa cautela foi dupla. Os astronautas poderiam ter sido expostos a bactérias nocivas ou outros elementos desconhecidos. A missão foi a primeira em que os humanos interagiram com a superfície de outro corpo celeste.

Os médicos monitoraram de perto os astronautas, enquanto uma outra equipe testava e estudava as rochas lunares e a poeira trazida por eles.  

Havia também o desejo de proteger qualquer vida potencial que pudesse ter sido trazido nas amostras lunares. A quarentena de 21 dias dos astronautas começou oficialmente quando a escotilha da sonda lunar Eagle fechou em 21 de julho, antes que Aldrin e Armstrong se reunissem com Collins no módulo de comando Columbia, circulando a lua, e começassem sua jornada de três dias de volta à Terra.

O aniversário de Armstrong não passou sem festividades, apesar das restrições. Sua festa surpresa contou com um bolo e velas acesas. O bolo foifeito e decorado pela equipe do Laboratório de Recepção Lunar, onde é hojeo Centro Espacial Johnson, em Houston, local onde os astronautas passarama maior parte da quarentena.

Depois que Armstrong apagou as velas, ele compartilhou fatias do bolo com a equipe que trabalhava em quarentena com a tripulação. Um cômodo de distância, separado por uma divisória de vidro, as esposas dos astronautas também celebraram o aniversário de Armstrong.

Ele fingiu passar os pedaços de bolo para elas pelo vidro. A quarentena de astronautas após pousos lunares continuou para as missões Apollo 12 e 14, mas não se estendeu para todo o programa Apollo, uma vez que os cientistas tiveram certeza de que não havia perigo para os astronautas ou qualquer pessoa que eles encontrassem ao retornar à Terra.

As imagens dos astronautas aparentemente entediados, tentando se divertir em quarentena é estranhamente similar para nós, que estamos vivendo isso mais de 50 anos depois.

Retornando à Terra

Prevenir a contaminação ao retornar, ou trazer “de carona” qualquer bactéria ou patógeno indesejado da lua, era uma grande preocupação, e as considerações foram feitas para cada estágio da missão Apollo 11.

Os planos para colocar em quarentena os astronautas que interagiram com a superfície da lua e de como lidar com o material lunar começaram no início de 1963, com a formação do Comitê Interagências de Combate à Contaminação (ICBC, na sigla em inglês), disse Brian C. Odom, historiador-chefe da Nasa.

O contágio por algo do espaço era um medo que estava presente nos filmespopulares de ficção científica da época, assim como o medo do desconhecido. Colocar os astronautas em quarentena após o retorno e verificar se eles tinham algum problema de saúde parecia a melhor maneirade lidar com as variáveis desconhecidas da Lua.

O material lunar foi manuseado com cuidado para mantê-lo intocado, mas também foi uma grande preocupação evitar que impactasse qualquer ambiente na Terra. Vários departamentos estiveram envolvidos no comitê para ajudar a proteger a saúde pública e a agricultura.

As amostras lunares foram seladas a vácuo e os astronautas ficaram em quarentena por 21 dias,com base no conhecimento de quanto tempo se leva para os sintomas surgirem quando os humanos são expostos a um hospedeiro invasor, disse Odom.

Armstrong e Aldrin usaram aspiradores para remover o máximo de poeira que puderam na sonda lunar Eagle antes de transferir as caixas de rochas da lua, filmes e outros itens para o módulo Columbia, uma vez que as escotilhas foram abertas entre os dois veículos.

Um fator inesperado durante a missão da Apollo 11 foi a poeira. A poeira lunar, ou regolito, estava por toda parte e se prendia a tudo que estava à vista, disse Odom.

Enquanto os astronautas se preparavam para voltar para casa, Donald K. “Deke” Slayton, diretor de operações de voo da tripulação, ligou para os astronautas e fez uma piada sobre a contaminação no retorno.

“Espero que todos vocês tenham uma boa noite de sono no caminho de volta. Estou ansioso para vê-los quando vocês voltarem. Não confraternizem com nenhum desses insetos no caminho, exceto com o Hornet” [que em inglês significa vespa].

O USS Hornet foi o porta-aviões que ajudou a resgatar os astronautas depoisque eles caíram no Oceano Pacífico, 812 milhas náuticas a sudoeste do Havaí, em 24 de julho.

Astronautas
Astronautas que foram à Lua na missão Apollo 11 são recebidos pelo presidente americano Richard Nixon

Até mesmo a remoção dos astronautas da cápsula do Columbia após o pouso envolveu precauções de segurança. Os nadadores que recuperaram os astronautas da cápsula usavam equipamento de mergulho para se proteger de qualquer microrganismo que pudesse estar presente.

Trajes de isolamento biológico foram entregues aos astronautas para se trocarem. Soluções de descontaminação foram aplicadas à escotilha do módulo de comando antes e depois que os astronautas o deixaram e a parte externa dos trajes que eles tinham acabado de vestir também foram limpos com a solução.

Os astronautas reclamaram dos macacões e do calor que sentiam dentro deles, então os trajes foram modificados para as missões Apollo seguintes, disse Odom.

No helicóptero que recolheu os astronautas e os levou ao porta-aviões estava o Dr. William Carpentier, um médico de voo da Nasa que avaliou cada astronauta brevemente durante o voo. Ele também usava um macacãode isolamento biológico.

O helicóptero pousou no porta-aviões e foi baixado em um elevador para que os astronautas e o médico Carpentier pudessem dar 10 passos até a instalação móvel de quarentena, um trailer prateado brilhante modificado, que foi fornecido pela Airstream.

Os quatro homens se juntaram ao engenheiro da Nasa John Hirasaki, que filmou os astronautas entrando no trailer, e os cinco permaneceram no veículo até chegarem a Houston, dois dias depois.Felizmente, os astronautas conseguiram tirar os trajes de isolamento, tomarbanho e vestir macacões de voo logo após entrarem no trailer.

Os três homens apareceram em uma pequena janela para serem recebidos pelo presidente Richard Nixon durante seu discurso a bordo do USS Hornet.

O módulo Columbia foi retirado da água e também devolvido a Houston também.

Estudando rochas lunares em busca de sinais de vida

Apenas 48 horas depois de chegarem à Terra, as amostras lunares e filmes da Apollo 11 estavam sendo processados e examinados. Os astronautas trouxeram 22,2 quilos de material da lua.

Uma amostra foi enviada a um laboratório para testar a radiação gama e para ver se havia algum microrganismo presente.

A sala que foi usada para abrir e estudar as amostras era mais limpa do que uma sala cirúrgica esterilizada, disse a Nasa.

Os cientistas também usaram caixas lacradas que continham uma luva flexível de cada lado, chamadas de caixas de luvas, para abrir e estudar as amostras. A pressão do ar era mais alta dentro das caixas e evitou o fluxo de ar ou contaminação. Os membros da equipe usavam aventais, protetores de botas, luvas e máscaras nas áreas onde as amostras eram manuseadas.

Os cientistas não acreditavam que houvesse vida na lua, mas a possibilidade não poderia ser totalmente descartada até que as amostras lunares pudessem ser estudadas, disse a agência.

O filme também foi esterilizado. Houve apenas um caso de uma pessoa realmente entrar em contato com a poeira lunar, que foi o fotógrafo da Nasa, Terry Slezak. Ao abrir as latas de filme, ele não leu uma nota escrita por Aldrin avisando que o filme havia caído na superfície lunar. Um pó preto apareceu na mão de Slezak, e ele precisou passar por um sério processo de descontaminação.

Os cientistas descobriram características intrigantes na poeira lunar e nas rochas, como minúsculos pedaços de vidro e cavidades por onde o gás escapou das rochas enquanto resfriavam após a formação. Elas também continham uma alta concentração de titânio.

Mas não havia evidência de vida, micro ou não, nessas amostras, nem toxinas. Organismos vivos como baratas foram expostos às amostras coletadas durante a Apollo 11, e nenhum deles sofreu quaisquer efeitos nocivos ou anormalidades.

Essa foi a primeira vez que a Nasa usou material de outro corpo astronômico na busca por vida fora da Terra.

As missões Apollo 12 e 14 seguiram um protocolo de quarentena semelhante, mas quando as missões das Apollo 15, 16 e 17 aconteceram, a Nasa estava confiante de que a quarentena depois entrar em contato com a superfície lunar não seria mais necessária. Após um exame médico inicial, os astronautas foram liberados.

Quando os humanos retornarem à superfície lunar em 2024 por meio do programa Artemis, a quarentena pós-pouso também não será necessária, graças ao conhecimento adquirido com o programa Apollo, disse o especialista em comunicações estratégicas do Centro Espacial Johnson da Nasa, Nilufar Ramji.

Um dia de quarentena do astronauta

Durante o período de quarentena, Dr. Carpentier realizou exames médicos regulares para garantir que os astronautas não tivessem sido afetados por alguma adversidade no voo espacial ou quaisquer patógenos em potencial, disse Odom.

A equipe que trabalhava no laboratório também foi monitorada para garantir que não apresentassem quaisquer de problemas de saúde. Até mesmo amostras de seus resíduos foram examinadas para garantir que, se eles tivessem mesmo pegado alguma bactéria, ela não estava escapando de seus corpos e se tornando um contaminante, disse Odom.

Toda a quarentena também foi monitorada externamente por dois outros médicos, e representantes da Organização Mundial de Saúde também inspecionaram o laboratório.  

E os astronautas começaram a descobrir maneiras de preencher o tempo livre.

Fotos e filmes os mostram jogando cartas, lendo revistas e ouvindo a cobertura da mídia sobre a missão deles. Enquanto estavam no trailer, antes de se mudarem para os espaços mais confortáveis no Laboratório de Recepção Lunar, eles desfrutaram das refeições aquecidas em um micro-ondas, tecnologia que só recentemente se tornou popular.

Também havia a possibilidade de os astronautas falarem com suas famílias, que foram separadas deles durante a quarentena, usando telefones no trailer ou entre paredes de vidro.

Foram dias apertados no confinamento para os astronautas, que já haviam passado oito dias juntos em sua missão, sem mencionar todo o tempo que passaram treinando antes do lançamento.

No entanto, eles tentaram dar um ao outro o máximo de privacidade possível. Por exemplo, quando Aldrin falava com a esposa ao telefone, Collins tapava os ouvidos e Armstrong tocava ukulele.

Muito do tempo no Laboratório de Recepção Lunar envolveu interrogatórios. Os astronautas se sentavam em uma sala separada por um vidro e discutiam diferentes aspectos da missão com a equipe da Nasa.

De acordo com a Nasa, as portas da área de recepção da tripulação do laboratório foram finalmente abertas em 10 de agosto, e os astronautas puderam sair para a noite úmida do Texas. Foi a primeira vez que os astronautas saíam e interagiam com outras pessoas além da equipe essencial desde a quarentena pré-voo.

“Eu gostaria de aproveitar esta oportunidade especialmente para agradecera todos vocês que vejo aí fora e que são meus gentis anfitriões aqui no Laboratório de Recepção Lunar”, disse Armstrong à mídia e à equipe do laboratório presentes. “Não posso dizer que escolheria passar algumas semanas assim, mas estou muito feliz por termos tido a oportunidade de completar a missão”

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Redação Juruá Online

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